domingo, 19 de fevereiro de 2017

ilusão

e quando a gente acha que está vendo algo de exclusivo, mesmo que triste, da nossa época, topa com dois versos do byron,  em don juan: "society is now one polished horde,/ formed of two mighty tribes, the Bores and the Bored". ou, traduzindo mal e porcamente: "a sociedade agora é uma horda única de educados/ formada por duas tribos valentes, os Pentelhos e os Pentelhados".



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

milton

quando milton nascimento me deu um beijo na bochecha e eu não quis lavar o rosto por uma semana, eu achava que iria casar com ele e que teríamos um filho chamado pablo. hoje ouço ponta de areia. passaram-se trinta anos e não casei com ele. ou melhor, casei sim e tive um filho chamado pablo, que hoje mora na nota desafinada e cheia da mais amorosa reverência no "um grito, um ai, casas esquecidas, viúvas nos portais".

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

cachorro

em "memoires d'hongrie", sandor marai conta que, depois de várias semanas de ocupação pelos soviéticos, logo antes da segunda guerra acabar, quando finalmente os alemães saíram de budapeste, os soviéticos partiram. sandor marai então caminhou cerca de vinte quilômetros para voltar até sua casa e, chegando lá, só encontrou ruínas, destroços e um único livro, totalmente intacto: como criar um cachorro numa casa burguesa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

filosofia

a filosofia, propriamente, começa quando se percebe que não há resposta para a pergunta: o que é o bem? e que é impossível encontrar uma conceituação universal que dê conta de todas as possibilidades contingenciais a ele relacionadas. e a filosofia, a partir daí, passa a ser uma pergunta sem resposta correta, cuja resposta está na ação de sua busca. ao buscar responder o que é o bem, o indivíduo está nesse caminho, pois nele interessado. o bem, para a filosofia ocidental e pós grécia do século quinto, é isso. buscá-lo.

domingo, 1 de janeiro de 2017

eis

"eis" é o fenômeno, a presença, o instante. "eis" é a língua portuguesa, a língua em auge, em transe de gozo falante. "eis" é a própria palavra em estado de soltura aérea, o sol semântico iluminando a página. "eis" é a pessoa viva, chegada, próxima de mim e de você, olhando no olho do furacão anímico e dizendo: "eis-me". "eis" é a vida bruta e líquida, o que é e está, em contraposição a todos os "anti-eis", coisas que não existem, como o dinheiro e a expressão "conforme foi dito acima".

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

escudo

quando era professor de filologia, em basel, nietzsche pediu aos alunos que, durante as férias, lessem com atenção o trecho da odisséia em que é descrito o escudo de aquiles. na volta às aulas, ele perguntou a um dos alunos se ele havia lido o trecho e o aluno, temeroso, respondeu que sim, apesar de não havê-lo lido. nietzsche, então, pediu a ele que descrevesse o escudo. o aluno ficou quieto e nietzsche aguardou em silêncio durante dez minutos, o tempo que ele estimava necessário para que o escudo fosse descrito minuciosamente. ao final desse prazo, nietzsche voltou à aula, dizendo: agora, depois de ouvirmos a descrição perfeita do escudo de aquiles, podemos voltar à matéria normal.

domingo, 11 de dezembro de 2016