terça-feira, 25 de agosto de 2015

tempo

para escrever melhor é preciso sentir a espessura do tempo. esperar; ter paciência; reler; reescrever; sentir as transformações acontecendo. conhecer o tempo do texto, do autor, dos personagens, do narrador, do editor, da vida. demorar-se. urgir. escrever o tempo e sua intangibilidade que, estranhamente, é perceptível: a simultaneidade, a duração, a instantaneidade. muitas vezes, o excesso de subjetividade pode atrapalhar o tempo; o excesso de palavras também. deixe, de vez em quando, que ele comande a escrita e submeta-se a ele. morra um pouco. depois renasça,

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

clipe

valei-me meu são cristóvão, meu santo escritório! um clipe, um clítoris, um critério, qualquer coisa com cr ou cl, qualquer proparoxítona ajudaria, um clavicórdio, um sacrilégio, mas valei-me! ajudai-me em qualquer coisa, mas não esquecei de mim.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

tudo

é sábio se dar conta de que tudo é vão. mas, pena, também o é esta própria sabedoria.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

cérebro

evoluímos o suficiente para termos um cérebro mais inteligente do que o do resto dos animais; mas por que catzo será que não evoluímos o suficiente de modo a que esse cérebro entenda, de uma vez por todas, que ainda somos animais?

domingo, 9 de agosto de 2015

paranoia

eu era garota, tinha acabado de começar a dar aulas de português no meu primeiro emprego de verdade, quando a psicóloga da escola, mais velha e experiente, chegou para mim e disse: noemi, você é boa, mas precisaria ser mais paranoica. não explicou nada. entendi, um pouco depois, que a paranoia, supostamente, iria me salvar dos espertalhões, dos enganos e dos truques. que o que ela entendia como ingenuidade (que, para ela, era sinônimo de carência de paranoia (?)) iria me colocar, frequentemente, em maus lençóis. trinta anos mais tarde, ainda me lembro disso. calou fundo. e continuo discordando. não sou ingênua coisa nenhuma. nem tampouco paranoica. e uma coisa, fique você sabendo, psicóloga de meia tigela, não é o contrário da outra. muitas vezes, sua chata de galocha, a verdade é que é a melhor forma de mentir.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

doença

sabe aquela frase linda que você escreveu no livro que está querendo publicar? aquela assim: "nos estertores da doença que o consumia, estendido no leito, suspirou um pedido derradeiro"? então. corte.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

eurequinha

lendo o quarto volume da autobioficção de karl ove, ontem, tive uma espécie de epifania que, talvez, muitos outros já tenham tido. sempre fico me perguntando por que gosto tanto de lê-lo. é um mistério. ontem entendi: karl ove escreve bem porque não escreve bem. seu estilo está em parecer que não tem estilo nenhum e que ele escreve apenas com sinceridade, total transparência. como se contasse, tim tim por tim tim, toda, mas toda sua vida mesmo. isso o humaniza profundamente, o torna comum, cheio de erros e mesmo assim capaz de escrever um livro de muito sucesso e, ao mesmo tempo, também aproxima tremendamente o leitor, que vê suas mundanidades elevadas ao nível de boa literatura.